Banda Dorsal Atlântica vai lançar sua própria história em quadrinhos
Carlos Lopes, guitarrista e desenhista encabeça campanha para financiar projeto

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Como contar uma boa história? A comunicação eficaz é um desafio e tanto! Há aqueles que optam por rebuscar a oratória e a eloquência – o que de fato é muito importante. Existem também aqueles que utilizam mecanismos como o humor ou o drama para passar sua mensagem, enfim. São inúmeras formas de transmitir algo que se deseja informar. Por meio de maneiras tradicionais ou não, importa eternizar relatos e memórias e materializá-las.

Entretanto, é ótimo quando tal propósito se dá de forma não convencional. É o caso da banda Dorsal Atlântica, que prepara o lançamento de sua história em forma de quadrinhos. Fundada e liderada pelo guitarrista Carlos Lopes em 1981, a banda lança uma campanha em busca de apoiadores para o projeto de publicação do material, previsto para agosto de 2016. Além de músico, Lopes também é desenhista e por meio de suas mãos e dotes artísticos, reproduzirá sua própria saga entre amigos, quadrinhos e acordes de guitarra.

“Dessa vez, o projeto é “menos” musical e mais artístico”, enfatiza Carlos Lopes. “Os quadrinhos são no estilo de um Will Eisner com um texto que mescla literatura e algum surrealismo e crítica social como nos filmes clássicos de rock como Tommy do The Who e The Wall do Pink Floyd mais a estética guerrilheira do Cinema Novo. Tudo dentro da realidade brasileira. Várias composições da Dorsal como “Guerrilha” (sobre repressão e a guerrilha do Araguaia) farão parte de imagens e subtextos. O trabalho tecerá conexões com elementos de nossas Óperas-Thrash como “Searching For The Light” (um Brasil futurista governado por traficantes no qual pobres e operários são assassinados durante o desfile de carnaval), “Alea Jacta Est” (sobre o Cristo Negro cuja crucificação é transmitida ao vivo em um programa de auditório) e “Imperium” (o Império deposto pela República).”

Além de retratar a caminhada da Dorsal Atlântica, a produção homenageará quadrinistas brasileiros do século XX como Jayme Cortez, Inácio Justo, Nico Rosso, E.T. Coelho, Flávio Colin, Júlio Shimamoto e Ivan Rodrigues, entre outros. Em entrevista à Revista Factual, Lopes explica o projeto.

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Carlos Lopes, guitarrista da Dorsal Atlântica e idealizador do projeto


A paixão pelo desenho foi uma aliada das atividades da Dorsal Atlântica desde seu início nos anos 80?

Sim, mas vai além da música e dos quadrinhos: mescla também literatura e cinema. Antes da internet e do celular, a troca de correspondência pelo correio era intensa e fundamental. Chegava-se a fechar show por carta! Conversando com outros músicos e apaixonados cheguei rapidamente, já na década de 80, à conclusão que eu era um estranho no ninho… Apesar de a música e o visual da banda serem enquadráveis em um subgênero, minha cabeça era, como é até hoje, mais próxima a cineastas e historiadores do que de músicos. Por exemplo… sinto-me muito mais próximo filosoficamente de um Chico Buarque do que de um Iron Maiden, só para citar um exemplo. Quando me dei conta disso, concluí que a Dorsal nunca seria a banda mais popular, mas seria a mais relevante.

Você considera que há uma relação intrínseca entre a música e as histórias em quadrinhos?

No caso da Dorsal Atlântica, a primeira conexão entre quadrinhos e a banda surgiu através dos próprios fãs, antes mesmo de me (re)aventurar na área. Por volta de 2008, quando estava perto da Maria Antonia no centro de São Paulo, um cara me perguntou se eu era o Carlos. Ele disse que era o desenhista que havia feito um quadrinho sobre a Dorsal para um revista dos anos 80 chamada Porrada que tinha um skinhead na capa! Quando gravamos em 1989 a nossa primeira ópera, Searching For The Light, o acordo com o selo americano que o iria lançar é que encartasse uma versão em quadrinhos que eu havia desenhado. Descumprido o acordo, o trabalho permanece inédito.

Quando surgiu esta ideia de reproduzir a própria história em forma de quadrinhos?

A necessidade de expandir. A Dorsal não é uma banda comum e sempre fiz questão de fugir do convencional. Até há um slogan, criado pelos fãs, “A Dorsal não é moda, a Dorsal é foda!” que representa a ideia. Em 2012 promovemos uma campanha de crowdfunding para gravar um novo álbum com uma formação da banda separada há 22 anos! A campanha bem sucedida me permitiu imprimir uma biografia sobre a banda. Por mais que eu tenha me debruçado em minúcias há várias passagens da história difíceis de serem explicadas em palavras. Os quadrinhos permitem-me entrar no terreno de imagens inconscientes e lúdicas.

O que é mais desafiador? Criar um enredo e transformá-lo em desenho ou reunir fatos da própria história e transportar para o papel?

Tenho como base a biografia citada e as várias passagens do livro que não expliquei por falta de espaço e para não transformá-la em imprensa marrom. A primeira vez que me deparei com um desafio, fosse gravar o primeiro disco ou escrever o primeiro livro, o fiz sabendo que somente o tempo me daria discernimento para fazer a diferença. E nessa altura da vida, cheguei à conclusão que estou bem mais consciente em vários aspectos para produzir uma obra que faça jus às minhas necessidades artísticas. O roteiro dos quadrinhos já está escrito, mas a decupagem será feita após o término da campanha. O mais difícil foi encontrar a dose exata entre música, política e o fantástico e isso já foi feito com muita delicadeza para não puxar sardinha demais para qualquer um dos lados.

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História em quadrinhos sobre a banda Kiss produzida por Carlos Lopes, baseada em fatos reais.

Em termos de execução do projeto, você produz sozinho ou conta com uma equipe apoiando em outras etapas do processo?

É o trabalho do exército de um homem só, de um apaixonado pelo que faz. O ganho desta campanha é artístico, porque os custos só cobrem a impressão e o correio. E se faço o que faço é porque amo arte. É como dar um salto quântico entre dimensões ao me desdobrar em roteirista, ilustrador, colorista e escritor. E eu gosto.

Como você avalia o atual momento das produções quadrinísticas no Brasil? Está havendo crescimento para este tipo de mercado?

O mercado mudou bastante desde os anos 80, mas por vários motivos, o domínio gringo nessa área ainda é um fato. Não fizemos como os franceses e os japoneses ao impor um estilo próprio com coragem e talento. Mas é claro que já há público e algum mercado para o quadrinho nacional. Só gostaria de frisar que “ser nacional” para mim não é um trabalho feito por brasileiros, mas um trabalho com estética e texto que só podem ser feitos no Brasil. São coisas bem diferentes. Não me sinto globalizado e nem faço questão. É preciso desenvolver uma obra com personalidade e ótimo texto, e principalmente, como proponho na campanha dos quadrinhos da Dorsal, ser de uma linhagem brasileira.

Este cenário atual se dá por conta do surgimento de profissionais no ramo ou tais profissionais já atuavam tendo apenas obtido o merecido espaço?

Principalmente na área da publicidade não se espera que o artista faça a diferença, mas que copie algum padrão ou produto vindo do exterior. Isso paga as contas, é o que dizem os que aceitam. É a velha guerra entre ideologia e pragmatismo. Afinal de contas, quem respeita um gênio pobre, ainda mais no Brasil? Aqui respeita-se o pobre de ideias vide as criaturas que infestam a TV aberta… E artista é palavra malquista no meio publicitário… O número de autores independentes, que “assoviam e chupam cana” cresce a cada dia. Mas a história é sábia em mostrar que não há como tirar dinheiro do bolso a vida toda. É fundamental estabelecer um vínculo entre o autor e o seu público.

E rola aquela questão das histórias em quadrinhos serem algo mais voltado para o público mirim/infanto-juvenil ou o público adulto demonstra mais abertura para tais produções atualmente?

Parei de acompanhar quadrinhos a partir dos anos 80 porque achava tudo muito infantil, como você citou, e além disso tinha e tenho horror de super-heróis e filmes de ação. O surgimento das novelas gráficas, um estilo de quadrinhos que se conecta mais ao meu gosto, teve como mentor Will Eisner que ainda me inspira. É essa linha que sigo, juntamente com quadrinistas franceses como Moebius e o italiano Sergio Toppi. Quanto à relação com os quadrinistas nacionais, quando menino havia dezenas de revistas coloridas de heróis gringos lançadas pela Ebal e Rio Gráfica, mas o que me chamava a atenção eram umas revistas de papel jornal escondidas nos cantos das bancas de jornais. Comecei a colecioná-las, sem saber que eram reimpressões de histórias dos anos 50 e 60. Mesmo difíceis de encontrar foi assim que conheci os mestres nacionais. Eu tinha um pouco de nojo do sexo naquelas revistas mas aquelas pinceladas desesperadas e escuras marcaram-me.

Falando da parte musical, a Dorsal Atlântica prepara algum lançamento? O que os fãs podem esperar?

No momento o mais importante são os quadrinhos e procuro não perder o foco. Crio todos os dias desde que me entendo por gente: escrevo livros, componho canções, desenho e faço de tudo um pouco. Tem quem se exercite para manter a forma física. Eu sou muito preguiçoso para isso e troco o físico pelo mental. Seria mentira se eu te dissesse que não há um novo disco sendo escrito, mas isso só aconteceria na época certa e se o projeto dos quadrinhos, que é o foco, for bem sucedido. A Dorsal nunca foi uma banda comum e nem fez um só tipo de arte. Além de música, e acima dela, a Dorsal é uma filosofia de vida e uma filosofia de arte. Na verdade eu nem gosto de ser enquadrado só no gênero metal porque apesar de cabelos compridos e da música alta não faço questão de ser colonizado.

DORSAL ATLÂNTICA

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A Dorsal Atlântica, fundada em 1981, é uma das primeiras bandas de heavy metal brasileiro e é conhecida por ter unido os dois públicos: o de metal e o de hardcore/punk. A Dorsal se apresentou com várias bandas internacionais como Venom, Exciter, Nasty Savage, Testament, Motörhead, Cradle Of Filth e Anathema, e no festival Monsters of Rock em 1998 em São Paulo, a Dorsal tocou com Manowar, Saxon, Glenn Hughes, Megadeth, Savatage, Slayer e Dream Theater. Carlos Lopes, fundador da banda, deu seu depoimento sobre o metal brasileiro ao documentário canadense Global Metal de Sam Dunn e Scot McFadyen em 2007.

Carlos Lopes escreveu e produziu o livro Guerrilha (biografia da banda Dorsal Atlântica) em 2 edições, a segunda financiada na campanha de crowdfunding no site Catarse em 2012. Autopublicou os livros O Segredo J e Mágica Vida Mágica (2009 e 2010) tendo participado de diversas palestras nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Foz do Iguaçu. Os livros estão sendo editados para relançamento em formato digital ainda em dezembro de 2015.

Editor da Revista Eletrônica O Martelo (mar/2006 até hoje), em 2008 Lopes escreveu, editou e diagramou a revista impressa O Martelo. Em janeiro de 2011, O Martelo obteve destaque no livro “Almanaque das Redes Sociais Futura”. Foi produtor e apresentador da Rádio Venenosa FM – Rio de Janeiro (de 2006 a 2008); colunista do site Oi Novo Som (2010 e 2011); produtor e apresentador do Programa Shock Wave na Rádio Fluminense FM – Niterói (1991); jornalista e subeditor da Revista Rock Press – Rio de Janeiro (de 1997 a 2006).

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Capa do disco Imperium, lançamento mais recente da banda.

CONHEÇA O PROJETO E A CAMPANHA DE ARRECADAÇÃO:

https://www.catarse.me/dorsalhq

 

Vinicius Martins

Editor da Revista Factual, jornalista em formação, cristão, músico, entusiasta da música e designer gráfico. Gosta de ler, tocar violão, bateria e curtir bons sons. Um apaixonado por Goiânia e seus encantos. Motivado pelo aprendizado.

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