Césio 137: acidente que espalhou o brilho azul da morte por Goiânia completa 30 anos
Três décadas após o maior acidente radiológico em área urbana do mundo, a Factual relembra um pouco da tragédia e seus desdobramentos.

Há exatas três décadas, no fatídico dia 13 de setembro de 1987, dois homens fariam a descoberta de um material que mudaria para sempre a história de centenas de pessoas e colocaria Goiânia no mapa dos maiores acidentes radiológicos do mundo – o maior em área urbana já registrado.

Tudo começou no momento em que dois catadores de materiais recicláveis, Wagner Pereira, então com 19 anos e Roberto Alves, com 22, descobriram um aparelho de radioterapia abandonado onde funcionava o antigo Instituto Goiano de Radioterapia (IGR), no Centro de Goiânia. Os homens levaram a peça, que pesava mais de 100 kg para a casa de Roberto, localizada na Rua 57, também no Centro da cidade, onde conseguiram desmontá-la. Em seguida, transportaram o aparelho até um ferro velho, na Rua 26-A, Setor Aeroporto, no intuito de vender a sucata e faturar algum dinheiro.

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A cápsula vendida ao ferro velho que continha o pó de césio e seria responsável pelo acidente. Foto: reprodução.

A partir de então, é desencadeada uma série de acontecimentos que, tragicamente, culminam em várias mortes e contaminações. Ao abrirem a cápsula de chumbo, Devair Alves Ferreira, dono do ferro velho, se deparou com um pó branco que emitia um brilho de cor azul. Foi o suficiente para que ele, impressionado com a novidade, tratasse de mostrar o material aos familiares e vizinhos. Começava aí o drama, de inúmeras pessoas que pensavam manusear um pó inofensivo, que, na verdade, tratava-se de cloreto de césio.

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O encantamento logo se converteu em tontura, náuseas e vômitos. Maria Gabriela, esposa de Devair, dá entrada em um hospital da capital com tais sintomas. A esta altura, Wagner e Roberto, que venderam a cápsula a Devair, também já sentiam mal estar. A similaridade entre os sintomas levou Maria Gabriela a elencar suspeitas – primeiramente, atribuídas a uma Coca Cola, que submeteu à examinação da Vigilância Sanitária. Posteriormente, a mulher levou à cápsula, juntamente com o marido para também ser verificada. Em 29 de Setembro de 1987, a contaminação por radiação foi confirmada.

O irmão de Devair, Ivo Alves Ferreira, também maravilhado com a substância, decidiu levar um pouco do pó para sua casa, no Setor Norte Ferroviário. Ele espalhou o pó no local. A filha de Ivo, Leide das Neves, então com 6 anos, o manuseou e depois comeu um ovo com as mãos ainda contendo césio. Horas depois, a criança começou a passar mal. Ela foi atingida com o maior grau de contaminação.

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A menina Leide das Neves, primeira vítima fatal do acidente e símbolo da tragédia com o césio 137. Foto: reprodução/Jornal do Vale.

Enquanto o tempo passava, crescia o número de contaminados pela radiação do césio. A partir daí, foi dado início a um processo severo de triagem. Os moradores da região foram levados a pedido da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), para o Estádio Olímpico. Durante este período, 112.800 pessoas foram monitoradas. Destas, 249 apresentaram radiação em seu corpo. Diante do diagnóstico, estas pessoas foram isoladas e agrupadas conforme o grau de contaminação, sintomas e grupos familiares. Em verificação posterior, 120 delas haviam sido descontaminadas pelos procedimentos adotados, que envolviam banhos com água, sabão e vinagre. As outras 129 passaram, a partir de então, a receber acompanhamento médico regular.

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PRIMEIRAS MORTES

Destas pessoas, 14 estavam em estado que inspirava mais cuidados e foram levadas para o Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro. Infelizmente, quatro delas morreram após um mês, mesmo sendo submetidas a tratamentos ainda mais severos. A menina Leide das Neves morreu em 23 de outubro de 1987, aos 6 anos.

Ela se tornou símbolo da tragédia. Seu sepultamento foi marcado por inúmeros protestos de moradores, temerosos que seu corpo contaminasse o solo e o lençol freático. No mesmo dia, Maria Gabriela, tia da garota e esposa de Devair, também faleceu. Israel Baptista dos Santos, de 22 anos e Admilson Alves de Souza, funcionários do ferro velho que entraram em contato direto com o césio, morreram nos dias 27 e 28 de outubro, respectivamente. Todos eles foram enterrados em caixões revestidos com chumbo e lacrados com cimento.

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Sepultamento de Leide das Neves é marcado por protesto de populares que pensavam que o solo seria contaminado. Foto: reprodução/O Piqui.

Devair Alves Ferreira morreu em 1994, aos 42 anos. Tornou-se alcoólatra e morreu por complicações do câncer que contraiu pela exposição à radiação. Ele lamentava e costumava dizer “Eu me apaixonei pelo brilho da morte”. Ivo Alves Ferreira, pai de Leide das Neves morreu em 2003, vítima de enfisema pulmonar, atribuída a seu vício em cigarros. Era depressivo e sentia-se culpado por ter deixado a filha brincar com o pó de césio.

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Devair Alves Ferreira, durante o tratamento contra os efeitos do césio. Foto: reprodução/Transparência Nuclear.
DESTINO DOS REJEITOS
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Área onde os rejeitos do césio 137 estão enterrados, no município de Abadia de Goiás. Foto: reprodução.

Um depósito foi construído na cidade de Abadia de Goiás, a 20 km da capital. Foram enterrados no local, 13.4 toneladas de lixo radioativo. Entre os rejeitos contaminados estão móveis, roupas, animais, casas, documentos das vítimas e até pedaços de ruas e calçadas que fizeram parte do trajeto de transporte do césio, colocados em contêineres de aço e concretados. São cerca de 1,3 mil caixas e 4,2 mil tambores, que devem oferecer risco ao meio ambiente por 300 anos.

No local hoje, está instalado o CNEN – Centro Regional de Ciências Nucleares do Centro-Oeste, responsável por monitorar os rejeitos radioativos e fazer o controle ambiental, além de pesquisas no campo das técnicas nucleares.

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PUNIÇÕES AOS RESPONSÁVEIS

Os médicos Carlos de Figueiredo Bezerril, Criseide Castro Dourado, Orlando Alves Teixeira, Amaurillo Monteiro de Oliveira e o físico responsável, Flamarion Barbosa Goulart foram denunciados pelo Ministério Público Federal em Goiás (MPF-GO) por homicídio e lesão corporal culposos em novembro de 1987, por terem abandonado a cápsula no antigo IGR .

A condenação veio nos anos 1990. Exceto Amaurilio, todos cumpriram pena em regime semi-aberto. Os médicos obtiveram habeas corpus após recorrer da sentença e prestaram um ano de serviços comunitários. Em 1998, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, a pena foi extinta por decreto presidencial.

REGIÃO DO ACIDENTE

Locais próximos ao antigo Instituto Goiano de Radioterapia (IGR), caso da Rua 57, do Mercado Popular da Rua 74 e adjacências sofreram com o preconceito, que causou prejuízos inclusive, para o setor imobiliário, com a desvalorização dos imóveis.

As pessoas não queriam frequentar comércios na região, pelo medo de entrar em contato com a radiação. Alguns moradores tiveram até mesmo que se mudar do local.

Hoje, o local retomou a normalidade, graças ao empenho de famílias e do comércio. O Mercado Popular da Rua 74 passou por revitalização e hoje recebe programações culturais, com shows musicais e outras atrações, que puderam devolver dignidade e vida à região e que foram instrumentos para erradicar o preconceito que sucedeu a tragédia.

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Hoje revitalizado, o Mercado da Rua 74 recebe programações culturais. À época do acidente, foi um dos lugares marcados pelo preconceito. Foto: reprodução.
ACOMPANHAMENTO E ASSISTÊNCIA

As vítimas do acidente com o césio 137 são atendidas pelo Centro de Assistência ao Radioacidentados (C.A.R.A.). A instituição foi criada em 1988 com o nome de Fundação Leide das Neves Ferreira (FunLeide), depois, foi renomeada para Superintendência Leide das Neves Ferreira (SuLeide) e desde 2011 possui este nome graças à Lei nº 17.257, que dividiu a SuLeide em Centro de Assistência ao Radioacidentados (C.A.R.A.) e em Centro de Excelência em Ensino, Pesquisa e Projetos Leide das Neves Ferreira (CEEPP-LNF).

Todos os anos, as vítimas passam por atendimento no C.A.R.A, além de filhos, netos e pessoas que trabalharam na descontaminação das áreas afetadas. No total, são 1.141 pessoas acompanhadas. Estas foram indenizadas e recebem pensões e plano de saúde do Estado.

As vítimas lutam para não serem esquecidas. Entre algumas das reclamações está o não oferecimento de medicamentos de alto custo pelo poder público aos pacientes e defasagem no valor da pensão. Em entrevista ao portal Terra, o irmão de Devair e Ivo, Odesson Alves Ferreira, de 62 anos, relata a situação.

“Todos nós temos dificuldade em conviver com essa história. Trinta anos depois, sentimos que governo não cumpriu com sua obrigação. É impossível conseguir os remédios que precisamos e a nossa pensão, que deveria ser de um salário mínimo (R$ 937) segundo a lei, está desatualizada (R$ 778)”, diz Odesson, que também foi vítima do acidente e fundou, em 1987, a Associação das Vítimas do Césio 137. Ele perdeu a palma de uma das mãos e teve um dedo atrofiado e outro amputado, apesar da pouca exposição com a radiação.

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Odesson Alves Ferreira mostra nas mãos, as marcas deixadas pelo césio 137. Foto: reprodução.
NOTA DA REDAÇÃO

Em tempo: a Factual se solidariza com cada família atingida direta ou indiretamente por esta tragédia.
Sabemos que existem feridas físicas ou psíquicas que não se curam. Entretanto, estendemos nossos mais sinceros votos de que, todo o bem que houver nesta vida, seja com estas pessoas.
E que os próximos anos possam recompensá-las com toda a alegria e realizações que possam ter faltado nas últimas três décadas.

Da Redação Factual. 

ESPECIAL CÉSIO 137 – 30 ANOS

Arte, pesquisa e infográficos: Vinicius Martins

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Vinicius Martins

Editor da Revista Factual, jornalista em formação, cristão, músico, entusiasta da música e designer gráfico. Gosta de ler, tocar violão, bateria e curtir bons sons. Um apaixonado por Goiânia e seus encantos. Motivado pelo aprendizado.

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