Lemmy Kilmister: um legado efetivo

0
opinião

lemmy

Como adotei as segundas-feiras para expor minhas humildes opiniões, comento com relativo atraso (dois dias) uma das despedidas mais especiais – se não, a mais especial do rock n’ roll, pelo menos nos últimos tempos. Com a presença de grandes artistas do rock e transmissão ao vivo via YouTube, Lemmy Kilmister foi velado em cerimônia ocorrida no Forest Lawn Memorial Park, em Los Angeles – Califórnia, nos EUA no último sábado, 09 de janeiro, 12 dias após sua morte ocorrida em 28 de dezembro de 2015, aos 70 anos.

Não me ponho a classificar o episódio com melancolia excessiva, pois considero que houve um misto de emoções. A tristeza pela partida do frontman, claro, é inevitável. Contudo, o que se via era uma reunião de fãs, familiares e amigos mantendo ou pelo menos tentando, o bom humor – do jeito que Lemmy queria e gostava. Obviamente, em alguns momentos, foi impossível conter as lágrimas – caso de Dave Grohl, vocalista do Foo Fighters, que chorou durante seu discurso ao lembrar como conheceu Lemmy, o fato de considerá-lo um herói e um verdadeiro rockstar e como seu herói foi além e se tornou seu amigo.

Outros astros também discursaram na ocasião – a começar pelo filho de Lemmy, Paul Inder. Seguiram-se os discursos com Mikkey Dee, do Motörhead, Sharon, namorada de Lemmy, o guitarrista Slash (agora de volta ao Guns N’ Roses), Matt Sorum, ex-Guns N’ Roses e Velvet Revolver, Rob Halford, vocalista do Judas Priest, Lars Ulrich e Robert Trujillo do Metallica, entre outros. Gene Simmons, vocalista e baixista do Kiss compareceu à cerimônia e fez um relato sobre o músico no site oficial do Kiss.

Há unanimidade em um fato acerca da vida de Lemmy Kilmister: ele realmente viveu e influenciou o rock n’ roll. Não quero usar de romantismo a respeito de sua trajetória – os excessos existiram sim. Álcool, drogas e mulheres – muitas mulheres, por sinal. O velho Jack Daniel’s com Coca-Cola era um companheiro quase que inseparável, tanto que foi um dos itens de decoração de seu funeral, juntamente com as botas de cowboy que compunham seu visual único e o arranjo de flores em formato de “Ás de Espadas” – ou, para bom entendedor e fã, “Ace of Spades”. Mas, é isto! É basicamente isto que faz dele o ícone verdadeiramente rock n’ roll de toda uma geração – sua destemida atuação na história. Lemmy viveu além do limite.

lemmy
Lemmy tocando com o Motörhead: 40 anos de história dedicados ao puro rock n’ roll. Divulgação.

Lemmy Kilmister foi intenso. Sua intensidade se demonstrou em todas as suas facetas: na música – ardida, rápida, potente, anárquica. No visual – as verrugas, o bigode e os trajes que o digam, somados ao seu estilo de cowboy motoqueiro maligno peculiar, e nos excessos já falados. Bebedor, fumante inveterado, garanhão excêntrico – a observar pelas mais de 1000 mulheres que ostentava em suas contas pessoais (há quem diga que foram mais de 2000). Apesar de toda esta intensidade que em parte causou sua destruição, fica a pergunta: por que Lemmy é tão reverenciado?

A resposta é simples. Ele deixa um legado. E não é o das drogas, nem das bebidas, muito menos, das mulheres. Até porque ‘pobres mortais’ dificilmente conseguiriam chegar onde o músico chegou, com a idade que chegou e com as conquistas que obteve. Seu legado se apóia em dois pilares. Primeiro: a generosidade e educação que contrastavam com sua aparência rebelde metaleira – outra unanimidade. Lemmy Kilmister era extremamente educado e receptivo com todos, a exemplo do relato de Dave Grohl, que certa vez aproximou-se timidamente e cheio de nervosismo, entabulou uma conversa com o frontman enquanto ele jogava videogame em um pub, tendo daí em diante, atraído para si um amigo pessoal. Ele não tinha a intenção de iniciar fãs aspirantes na música em sua trajetória tresloucada, mas ao contrário, como o próprio Gene Simmons descreve em seu texto, Kilmister orientava jovens músicos a deixar as bebidas e preocuparem-se com outras coisas mais importantes na vida, como por exemplo, fazer música e montar sua banda de rock.

O segundo pilar que reconheço e para mim, a terceira unanimidade que posso apontar neste artigo é a capacidade ímpar que Lemmy tinha de unir públicos através de seu rock incrível. Quem já conviveu, ainda que pouco tempo em meio ao rock sabe das ‘rixinhas’ que por vezes, acontecem entre públicos. Os confrontos ideológicos entre fãs do heavy metal e do punk rock/hardcore, por exemplo, são por vezes acalorados. Mas entre ambos, há sim um denominador comum: o gosto pela música do Motörhead. E no centro disso tudo, um personagem principal. Seu nome: Ian Fraiser Kilmister, ou apenas, Lemmy Kilmister, seu eterno cognome.

Com a morte de Lemmy, sinto um ciclo se fechando. Não quero ser saudosista, nem ‘chover no molhado’, mas de certa forma, o rock fica órfão de referências ao passar dos anos. E é sobre isto que devemos problematizar: a obra de Lemmy fica como um legado intocável e respeitável – é óbvio. Resta saber é se teremos novos músicos, bandas e afins que se inspirarão na herança musical e pessoal de Kilmister para renovar tal cenário nas próximas décadas ou se ficaremos lamentando o fim da história como meros espectadores e apenas, contando com a competência dos mestres que aos poucos se vão, como é o caso de Lemmy e do Motörhead.

Pulverizo esta questão no ar. Forte abraço e até a próxima!

lemmy-homenagem

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor, digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui