O Tribunal do Facebook e o senso de empatia

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O médico Guilherme Capel Pasqua na foto que gerou polêmica. Reprodução/Facebook.

No último final de semana, tivemos mais uma demonstração da ‘arte’ do desmerecimento. O médico plantonista Guilherme Capel Pasqua, funcionário do Hospital Santa Rosa de Lima, em Serra Negra (SP), teve divulgada nas redes sociais uma imagem sua onde aparecia segurando um receituário médico com o texto “Não existe peleumonia e nem raôxis”, acompanhada da legenda “Uma imagem fala mais que mil palavras”. A infeliz – o mínimo que se pode dizer sobre a postagem, ironizava o linguajar de um mecânico que havia sido atendido pelo médico minutos antes. O erro culminou no afastamento de Guilherme do trabalho, juntamente com duas enfermeiras.

O caso revela a incapacidade grotesca que temos de nos colocar em patamar de equidade com o próximo. Não somos iguais, mas temos igualmente o mesmo direito ao respeito, independentemente de nossa condição social, escolaridade, raça, credo ou qualquer outro tipo de postura que possamos ter – exatamente aquilo que nos difere. Por outro lado, evidencia também o quanto somos apressados em execrar pessoas por seus erros. Parafraseando a banda de rock cristão Fruto Sagrado: “a sociedade condena e executa sem apelação”. Ou seja, mal acontece o fato, os juízes de Facebook já sentenciam a pessoa ao isolamento e fazem os piores votos – chegando ao cúmulo até mesmo de ameaçar de morte quem erra. REPITO! Não há defesa para isso, mas vamos colocar na balança. E quem nunca errou uma vez na vida, que atire a primeira pedra. Mas primeiro, observemos os nossos erros.

Não estou dizendo que não devemos nos indignar com tais injustiças, mas também não podemos agir de maneira tão primitiva. Alguns erros podem até não ser justificáveis, mas são remediáveis. Compreendamos isso para assim, evoluirmos no debate e na construção de uma sociedade mais equilibrada, mais saudável – em todos os sentidos.

E por falar em remediar, o médico Guilherme Capel Pasqua se dispôs diante de toda a repercussão negativa do caso a se retratar e se colocou à disposição da ONG que ajuda o Hospital Serra Negra para realizar plantões voluntários, nos quais todo o dinheiro arrecadado será destinado à ONG.

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O médico Guilherme Capel Pasqua posa com o mecânico José Mauro de Oliveira Lima, e um pedido de desculpas. Reprodução/Facebook.

Quantos de nós teríamos a mesma disposição em reconhecer e consertar nossos erros?

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A médica Júlia Rocha. Reprodução/Facebook.

A melhor resposta ao post veio da também médica mineira Júlia Rocha, que publicou um texto em linguagem popular assegurando que sim, “Existe Peleumonia” e compreendendo que para ela, foi dada a chance de conhecer as letras e os livros, mas para os menos escolarizados, foi dada apenas a chance de dizer.

EXISTE PELEUMONIA.

Eu mesma já vi várias. Incrusive com febre interna que o termômetro num mostra. Disintiria, quebranto, mal olhado, impíngi, cobreiro, vento virado, ispinhela caída. Eu tô aqui pra mode atestá. Quem sabe o que tem é quem sente. E eu quero ouvir ocê desse jeitinho. Mode a gente se entendê. Por que pra mim foi dada a chance de conhecê as letra e os livro. Pra você, só deram chance de dizê.
Pode dizê. Eu quero ouvir.

Júlia também é cantora e participou do reality show The Voice Brasil, da Rede Globo no ano passado. Até a finalização desta matéria, seu post já tinha 68.822 compartilhamentos e mais de 1.500 comentários. Sem ofensas pessoais ao médico e ressaltando de maneira belíssima a condição dos menos favorecidos, Júlia deu uma resposta que é uma lição para todos nós: para discordarmos e refutarmos um erro ou uma injustiça, não precisamos descer ao nível do discurso de ódio. Basta termos inteligência para argumentar e senso de empatia para nos colocarmos na posição dos injustiçados.

Será que aprenderemos esta lição? Pulverizo esta pergunta no ar. Até a próxima!

EXISTE PELEUMONIA.Eu mesma já vi várias. Incrusive com febre interna que o termômetro num mostra. Disintiria,…

Publicado por Júlia Rocha en Viernes, 29 de julio de 2016

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