Opinião: O assassinato de Marielle Franco escancarou o lado mais podre, doente e nojento do Brasil

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Marielle Franco
Foto: reprodução/internet.

Eu sou um cara teimoso demais. Isso é bom em alguns aspectos, porque me ajuda a não desistir de coisas que quero tão facilmente. Entretanto, ser teimoso acarreta alguns prejuízos em certos momentos. No meu caso, eu tenho uma mania que é muito estúpida: ler comentários de redes sociais.

Não recomendo! Não é saudável. Muito pelo contrário, é estarrecedor e faz mal. Nesta semana eu fiquei um tanto encabulado com o que vi. Pessoas comemoravam o assassinato da vereadora do Rio de Janeiro, Marielle Franco, morta a tiros na última quarta-feira (14), na região central do Rio. O motorista do carro, Anderson Pedro Gomes, também morreu no atentado.

Confesso que ler os comentários de grande parte dos usuários de redes sociais é um negócio que suga a vitalidade e enfraquece os ossos. É muito ódio disseminado por pessoas que nem conheciam Marielle Franco, não sabiam quais eram suas causas e ignoravam por completo sua trajetória.

Mulher, 38 anos, negra, mãe, lésbica, ativista, feminista, “cria da Favela da Maré”. Se muitos tem algum tabu na vida para quebrar, Marielle tinha vários, ao mesmo tempo. E quebrou um por um. Resultado de seu esforço e trabalho contínuo se formou em Sociologia na PUC-Rio e se tornou mestra em Administração Pública na Universidade Federal Fluminense.

A representatividade exercida por Marielle Franco a elevou ao posto de quinta vereadora mais votada do Rio de Janeiro nas eleições de 2016. Sua luta era para proporcionar mais dignidade às minorias e classes sociais menos favorecidas. Tais ideais mexem com os interesses de muita gente.

A vereadora foi morta por defender o que acreditava. Por crer que é possível que o negro, o pobre, o homossexual, enfim, que as minorias sejam inseridas nas estruturas sociais. Marielle se tornou uma voz potente para estas classes. Uma voz que tentaram calar na noite de quarta-feira.

TENTARAM! Com a bestialidade deste crime, a voz de Marielle Franco ecoou em todo o país. E fora dele também. Foram inúmeras as manifestações realizadas pelo Brasil e fora dele em memória da vereadora. A repercussão foi tão grande que levou os deputados da União Europeia a pedir suspensão de negociações para um acordo comercial com o Mercosul, em protesto contra a barbárie, cujo viés é político.

Mas os usuários das redes sociais – ah, estes cheios da razão, “professores de Deus”, não tardaram em vociferar – raivosamente – seu ódio e insignificância na internet. Não pouparam xingamentos e impropérios, que, sequer, devem ser mencionados.

Disseram que ela mereceu. Que era defensora de bandidos. Que foi morta por suas “crias”. Que é bem feito que isso tenha acontecido. E escancararam todo o seu ódio e rancor sem pudor algum. Mostraram assim, o lado mais podre, doente e nojento do Brasil.

As comparações são inevitáveis. Os mesmos internautas questionaram a comoção pela morte de Marielle Franco. Disseram que não houve todo esse barulho em virtude da morte de outros cerca de 60 mil inocentes, vítimas de homicídio no Brasil. Estes que contestam são pessoas intolerantes que não fazem nada por ninguém, reclusas em seu ativismo de sofá da sala, que apenas confrontam quem se levanta para fazer alguma coisa.

Marielle morreu por defender os direitos humanos de inocentes como Anderson, 39 anos, seu motorista, que nada tinha feito para morrer daquela forma – estava apenas trabalhando em um bico para complementar a renda familiar. Defendia, ainda, os policiais mortos e suas famílias – fato que os raivosos de internet não sabem, sequer se interessam em saber, afinal, mais vale a ignorância voraz do que o conhecimento efetivo. Acompanhava investigações, prestava apoio, cobrava soluções. E obviamente, denunciava possíveis abusos e excessos da Polícia Militar. Incomodou gente graúda.

Me entristeço particularmente em ver que muitos desses, que expõem todo o peso e mácula de seu ódio são justamente aqueles que trazem em seus perfis, inscrições como “Jesus te ama”, “Sou de Jesus”, “Deus acima de tudo”. Em que mundo vocês vivem? Ou melhor, qual Bíblia leem?

Não me lembro de ler qualquer versículo onde Jesus tenha sido tão reacionário. Muito pelo contrário. No evangelho de Mateus, capítulo 5, versículo 44, Jesus nos diz para amar até mesmo nossos inimigos e orar pelos que nos perseguem. E ainda em Mateus, capítulo 22, versículo 29, Cristo diz: ‘Ame o seu próximo como a si mesmo’. Meio contraditório para os ditos “cidadãos de bem” contemporâneos, não? Mas está na Bíblia, sagrada para os cristãos. É só ler.

Portanto, quero fazer o convite a uma reflexão. Que tal colocar de lado o ‘direita x esquerda’ e ter um pouco mais de empatia e senso crítico? Não se perdeu uma ‘esquerdista’, ‘socialista’ e outros ‘istas’. Tiraram uma vida, defensora de direitos usurpados das minorias hoje, mas que podem ser, da mesma forma, tirados de qualquer um de nós amanhã.

Marielle Franco é uma vida removida apenas do plano material, palpável. No campo ideológico, vive e sua voz ressoa mais forte e viva do que nunca. Foi eternizada. A história a lembrará.

Encerro com uma frase do escritor, professor e filósofo italiano Umberto Eco (1932-2016), para contextualizar.

“As mídias sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis que, anteriormente, falavam só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade. Diziam imediatamente a eles para calar a boca, enquanto agora eles têm o mesmo direito à fala que um ganhador do Prêmio Nobel. O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade”.

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