
A mesa posta para as refeições da família, a sala preparada para receber amigos e convidados, o lugar de aconchego e descanso depois de um longo dia de trabalho — o sonho da casa própria permeia os anseios de milhões de brasileiros todos os dias, mas esbarra na burocracia, custos elevados e outros fatores que dificultam essa conquista.
Diante desses entraves, o cooperativismo habitacional surge como uma alternativa importante para possibilitar e ampliar o acesso à moradia. Nesse modelo, as cooperativas organizam seus respectivos cooperados para viabilizar empreendimentos de forma coletiva e participativa, destinados a diferentes perfis socioeconômicos.
No cooperativismo, a Habitação é um segmento do ramo de Infraestrutura, setor que também abrange cooperativas de geração e distribuição de energia elétrica, saneamento básico, telecomunicação, construção civil e irrigação.
Dados do AnuárioCoop, divulgado pelo Sistema OCB Nacional, mostram que, só no ano de 2025, em Goiás, o ramo de Infraestrutura foi responsável por movimentar um volume financeiro de R$ 161,7 milhões, acumulando R$ 902,1 milhões em ativos e R$ 5,5 milhões em sobras, que equivalem ao lucro em empresas e bancos tradicionais. Esse valor é distribuído entre os cooperados de forma proporcional à participação nas atividades da cooperativa.
Conforme os dados, a Infraestrutura conta com 30 cooperativas no Estado, que empregam 226 pessoas e têm adesão de 2.996 cooperados. Dessas cooperativas, 21 são voltadas ao segmento de Habitação.

Para o presidente do Sistema OCB/GO, Luís Alberto Pereira, o cooperativismo habitacional facilita o acesso à moradia ao reunir pessoas com um objetivo comum, permitindo a união de recursos, o compartilhamento de custos e a eliminação de intermediários que normalmente encarecem os empreendimentos.
“Com gestão democrática e foco no benefício coletivo, as cooperativas conseguem buscar soluções mais econômicas para aquisição de terrenos, construção e financiamento dos imóveis”, explica.
Segundo Luís Alberto Pereira, a principal diferença em relação a outros modelos tradicionais de aquisição de imóveis é que, no cooperativismo habitacional, os futuros moradores são também participantes da organização e das decisões do empreendimento. A ideia não é gerar lucro para incorporadoras ou investidores, mas atender às necessidades dos próprios cooperados.
“Enquanto nos modelos tradicionais o comprador adquire um imóvel desenvolvido por terceiros, na cooperativa os associados participam da gestão, acompanham o andamento do projeto e compartilham responsabilidades e benefícios. Trata-se de um modelo baseado na cooperação, transparência e gestão democrática”, afirma.
Pontos de atenção ao optar pelo cooperativismo habitacional
Entre os principais pontos que um comprador deve considerar ao optar por adquirir um imóvel por meio do cooperativismo habitacional, Luís Alberto Pereira destaca que ele precisa verificar se a cooperativa está regularmente constituída e se possui governança transparente. Conhecer o histórico da cooperativa em questão e dos empreendimentos realizados também é um passo recomendado pelo presidente do Sistema OCB/GO.
Pereira também alerta para a observação do Selo de Conformidade para Cooperativas Habitacionais.
“Outro ponto importante é dar preferência a cooperativas que já possuem o Selo de Conformidade do Sistema OCB/GO, uma certificação que atesta o atendimento a requisitos de regularidade, governança, gestão e conformidade legal. Esse reconhecimento oferece mais segurança ao cooperado, pois demonstra o compromisso da cooperativa com boas práticas de gestão, transparência e proteção dos interesses dos associados”, esclarece.
Lançado em novembro de 2022, o Selo de Conformidade é fruto de uma parceria entre o Sistema OCB/GO e as entidades que integram o Fórum Goiano de Habitação, como Associação das Empresas do Mercado Imobiliário de Goiás (Ademi), Sindicato dos Condomínios e Imobiliárias do Estado de Goiás (Secovi Goiás), Sindicato da Indústria da Construção no Estado de Goiás (Sinduscon-GO) e Associação dos Desenvolvedores Urbanos de Goiás (ADU-GO).
Para receber o selo, as cooperativas são submetidas a avaliações rigorosas, que visam comprovar a adesão delas aos princípios do cooperativismo e à legislação do país.
Em agosto de 2025, também foi lançada a Cartilha das Cooperativas Habitacionais. A publicação reúne informações sobre legislação, documentação, transparência e direitos dos cooperados.
“Ao considerar esses aspectos, o comprador aumenta a segurança do investimento e aproveita os benefícios de um modelo baseado na cooperação, na participação dos associados e na construção coletiva de soluções para ampliar o acesso à moradia”, completa Luís Alberto Pereira.
Olhar profissional transformou o modelo de negócio
Atuante no mercado há 20 anos, o engenheiro civil Thiago Libório, gestor executivo da Cooperluxo – Central de Cooperativas Habitacionais de Alto Padrão, conta que trabalhou em grandes empresas e incorporadoras voltadas para prédios verticais de altíssimo padrão. Em 2016, se tornou empresário e está na Cooperluxo desde 2018.
Nesses 8 anos dedicados ao cooperativismo, Libório conta que enfrentou muitas dificuldades para explicar o funcionamento do sistema cooperativista, mas que o olhar profissional transformou a Cooperluxo em uma cooperativa de referência e fez com que ela se tornasse a primeira central de cooperativas do Brasil.
“No início, foi muito difícil. Enfrentamos muitos desafios. A parte de convencimento junto às pessoas e explicar a parte de educação, informação e formação do sistema cooperativista foi algo muito difícil. Mas o que a gente acredita que mudou bastante para o mercado das cooperativas é que nós tivemos um olhar mais profissional. Nós entendíamos que, naquela época, quando a gente começou, há 8 anos, era necessário que nos tornássemos, de fato, uma empresa, criássemos processos, uma identidade própria, uma marca própria, voltada, obviamente, para o cooperativismo. Com isso, nos tornamos hoje uma cooperativa de referência e passamos a ser a primeira central de cooperativas do Brasil”, detalha.
Passado o período mais difícil, o gestor celebra conquistas, como o certificado da ISO 9001, norma internacional mais reconhecida do mundo para a criação e manutenção de um Sistema de Gestão da Qualidade (SGQ), fundamental para os processos de melhorias de qualidade dos produtos da Cooperluxo.
A cooperativa goiana também executa as obras do Pôr do Sol Vaca Brava, primeiro projeto voltado para o sistema cooperativista no entorno do Parque Vaca Brava, no Setor Bueno, em Goiânia, que está em fase de obras e tem entrega prevista para 2028.

A Cooperluxo prepara ainda um projeto na capital de São Paulo e projeta para 2028, quando completará 10 anos em atividade, o anúncio de um empreendimento fora do país, mais especificamente em Miami, na Flórida, nos Estados Unidos.
Thiago Libório aponta que uma das vantagens do cooperativismo habitacional em relação a outros modelos é a transparência no processo.
“Uma cooperativa não vende imóvel. Ela convida pessoas para fazer parte de uma sociedade. As pessoas participam do início ao fim da construção do empreendimento. Existe uma governança, onde tem a Assembleia Geral, onde os próprios cooperados podem participar ativamente de um conselho fiscal. Temos uma diretoria também eleita pelos cooperados e, claro, os gestores, os profissionais que ali atuam para fazer com que o empreendimento saia do papel. E isso tem trazido uma importância muito grande da transparência, porque as pessoas passam a observar o investimento delas na prática. Ou seja, elas sabem se a cooperativa tem ou não tem inadimplente, o que está comprando, se está acima ou abaixo do orçamento, o cronograma da obra, o laudo fotográfico. As pessoas participam ativamente”, ressalta.
Para o gestor executivo, o cooperativismo é uma maneira de conquistar um produto de qualidade, com preço justo. Ele argumenta que no sistema cooperativista, as pessoas passam a saber literalmente o que acontece com o dinheiro delas. E dá dicas para quem quiser conhecer.
“As cooperativas infelizmente não têm muitos meios de divulgação, mas são divulgadas através das nossas redes sociais. Os tapumes das nossas obras, que também são literários, explicam como é o cooperativismo. E também por meio do Sistema OCB/GO. Todas as cooperativas que possuem credibilidade são registradas na OCB e possuem um Selo de Conformidade. Esses são os canais onde as pessoas podem buscar, seja na OCB, nas nossas redes sociais ou até mesmo através dos nossos tapumes, que estão espalhados pela cidade. E claro, a gente sempre tem feito divulgações pela imprensa, pelos jornais e isso também tem ajudado a fomentar”, comenta Thiago Libório.

Perspectivas de mercado
Segundo Leandro Borges, presidente da Cooperhouse, cooperativa que atua com condomínios verticais e horizontais, o cooperativismo habitacional está em franca expansão e consolidação em Goiás. Para ele, o modelo se tornou uma alternativa altamente atraente tanto para investidores quanto para quem busca moradia própria, impulsionado pelo formato de autofinanciamento e pela ausência de margem de lucro comercial.
Borges explica que, até o momento, as cooperativas habitacionais já injetaram cerca de R$ 3 bilhões em empreendimentos no Estado. O principal atrativo desse modelo é a entrega de imóveis com custos inferiores aos praticados pelo mercado imobiliário tradicional, incluindo opções de alto padrão.
“As principais razões que levam um comprador a escolher o cooperativismo habitacional são o custo reduzido do imóvel, a ausência de juros bancários e a flexibilidade na aprovação do crédito. Ao eliminar o lucro das grandes incorporadoras, esse modelo atrai quem busca uma alternativa mais econômica e menos burocrática aos financiamentos tradicionais”, comenta.
De acordo com o presidente, as principais vantagens que motivam essa escolha incluem:
- Preço de custo: a cooperativa constrói o imóvel sem o objetivo de lucro imobiliário. Os cooperados rateiam apenas os custos reais do terreno, materiais e mão de obra, o que pode gerar uma economia de 20% a 40% em comparação com o mercado tradicional.
- Isenção de juros abusivos: diferente dos bancos, as cooperativas não cobram juros de financiamento. As parcelas são corrigidas apenas por índices de inflação da construção civil, como o INCC (Índice Nacional de Custo da Construção), para manter o poder de compra do grupo.
- Burocracia reduzida: o processo de adesão costuma ser simplificado. Não há as exigências rígidas de análise de crédito e comprovação de renda dos bancos tradicionais no início, facilitando o acesso para trabalhadores autônomos e informais.
- Gestão participativa: o comprador não é apenas um cliente, mas um sócio do empreendimento. Todos têm direito a voto nas assembleias para decidir sobre o andamento das obras, escolha de fornecedores e prestação de contas.
- Condições de pagamento adaptáveis: os planos de pagamento costumam ser estruturados de acordo com a capacidade financeira do grupo, com parcelas mensais e intermediárias (anuais).
O presidente da Cooperhouse enxerga as perspectivas para o cooperativismo de habitação nos próximos anos como “altamente promissoras”, impulsionadas pela busca por moradias mais acessíveis, sustentáveis e focadas em comunidade.
“Diante do aumento do custo de vida e do crédito imobiliário tradicional, o modelo cooperativo se consolida como uma alternativa viável para reduzir o déficit habitacional, especialmente entre a classe média e o público jovem”, argumenta Borges.

A experiência de quem adquiriu imóvel pelo cooperativismo habitacional
A procuradora municipal aposentada Roseli Oliveira Araújo conta que foi apresentada ao cooperativismo habitacional em 2020, por indicação de uma pessoa que já tinha um apartamento adquirido por meio de uma cooperativa.
Ao conhecer o modelo, Roseli se interessou pela proposta. Na sequência, ela iniciou as negociações e começou a pagar o empreendimento ainda na planta. Em fevereiro deste ano, ela recebeu o apartamento pronto para morar. E se mostra satisfeita com a compra.
“O que tenho a dizer com relação à aquisição de um imóvel? Faça através da cooperativa, pois nos proporciona grandes vantagens, especialmente condições e flexibilidade nas prestações. Posso afirmar sem dúvida que a cooperativa me proporcionou condições de adquirir um imóvel de alto padrão com baixo custo por um meio seguro e confiável de investimento”, comemora.

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