Transformação digital: tecnologia impulsiona e reinventa pequenos negócios em Goiás
Inteligência Artificial (IA) e outras ferramentas guiam empreendedores que buscam iniciativas para inovar na gestão e manter a competitividade

Em um mundo cada vez mais conectado, empreendedores apostam nas diversas possibilidades que surgem todos os dias para se manterem atualizados e competitivos diante de um mercado ágil, que muda constantemente. Nesse contexto, não basta estar na internet e ter uma presença digital. É necessário ir além. Estar imerso nas tendências tecnológicas e em tudo o que elas podem oferecer é o que pode elevar um negócio e mantê-lo vivo e escalonável.
O jogo é complexo e acirrado, mas microempreendedores individuais (MEIs), microempresas (MEs) e empresas de pequeno porte (EPPs) não precisam entrar em campo sozinhos. Se as demandas evoluem, as ferramentas e estratégias para lidar com elas também se aprimoram constantemente. E a transformação digital é parte fundamental no processo para prestar apoio aos pequenos negócios em meio a tantos percalços.
Bruno Lyra, analista do Sebrae Goiás, explica que a falta de planejamento e de clientes, o aumento dos custos de mercado e o endividamento figuram entre os principais gargalos enfrentados pelos empresários, conforme revela a 12ª edição da Pesquisa Pulso dos Pequenos Negócios, realizada pelo Sebrae Nacional entre fevereiro e março deste ano.
Para o analista, este cenário ocorre porque a maioria dos negócios surge por necessidade, não por oportunidade. Dessa forma, os empreendimentos se desenvolvem de forma totalmente orgânica e precisam “trocar o pneu com o carro rodando”, o que faz com que o planejamento seja deixado em segundo plano. Ele explica que os empreendedores relatam problemas como a falta de entendimento sobre quem é o seu cliente, onde ele está e como conseguir acessá-lo.
“Todos os dias têm surgido novas tendências, ferramentas e inteligências que ajudam o próprio consumidor. Há um nível de qualificação da demanda um pouco maior e o empreendedor por não se planejar, por não conhecer e não escutar o seu cliente acaba tendo essas dificuldades”, afirma.
Se a situação a princípio pode parecer caótica, é importante frisar que há vários caminhos possíveis para superá-la. Um deles é o Sebraetec, programa ofertado pelo Sebrae que conta com mais de 270 soluções tecnológicas e oferece consultorias personalizadas para auxiliar empresas a inovar, desenvolver tecnologias e implementá-las.
Lyra explica de que forma o Sebraetec atua.
“Dentro do Sebraetec, temos uma área de transformação digital, na qual a gente pode fazer diversos serviços, como uma preparação da presença digital. Ou seja, o consultor vai entender junto ao empresário quais os principais ambientes digitais nos quais ele tem que estar, se ele tem que estar no Instagram, no TikTok, no LinkedIn, e ajudá-lo a criar as campanhas de tráfego pago para atrair mais clientes”, destaca.
Além das redes sociais, o programa abrange ações como desenvolvimento de websites, lojas virtuais e uma série de serviços focados na transformação digital dos pequenos negócios.
Outro programa citado por Lyra é o ‘Transformação Digital 5.0’, que é totalmente gratuito e online. Nele, o empreendedor é conduzido por uma jornada estruturada ao lado de um consultor especialista no assunto, que começa com um diagnóstico inicial. Nesta etapa, o consultor avalia a realidade e o nível de maturidade da empresa para identificar as melhores oportunidades de crescimento digital.
Na sequência, é traçado um plano de ação, desenvolvido em conjunto com o empresário para definir as estratégias e melhorias internas necessárias para a transformação. Depois vem a fase de implementação, quando o consultor e o empresário executam aquilo que está previsto no plano de ação. Tudo é monitorado constantemente com o objetivo de que a empresa conquiste um aumento no seu nível de maturidade digital.
O profissional considera que iniciativas de transformação digital precisam existir de forma assertiva e adaptada, em processos individualizados e personalizados, conforme a realidade de cada uma das empresas.
“A transformação digital é um caminho sem volta. Até pouco tempo atrás não falávamos de inteligência artificial. Hoje a gente tem noção e ciência de que vamos utilizar isso por muito tempo, todos os dias da nossa vida, do nosso trabalho. Isso é o processo de transformação. Obviamente, temos colhido resultados muito bons. Diversos indicadores comprovam os resultados desses programas que foram citados. E o empresário que realmente está sujeito a inovar no seu negócio tende a continuar no mercado”, pontua Bruno Lyra.
Em se tratando de marketing, Lucas Lourenço, coordenador do Núcleo Digital do Sebrae Goiás, afirma que o digital é uma forma mais fácil, rápida, escalável e barata de se fazer uma previsão de crescimento do negócio, em aspectos como funis de venda, custo por leads, custo de aquisição de clientes, entre outras métricas.
“No digital, eu consigo saber quem veio, de onde veio, qual é o grau de intenção dessa pessoa, se só clicou, se veio do WhatsApp, perguntou preço, pediu forma de pagamento… tudo isso a gente consegue acompanhar. Então, é um grau de maturidade de análise de dados de cliente muito maior. Por isso, o digital é uma ferramenta muito boa pra trazer previsibilidade pro negócio. Com a chegada da IA e todas essas tecnologias de automação, de inteligência de dados, vai ficar muito difícil pra quem estiver somente com um negócio tradicional, físico, competir com os demais negócios que estarão utilizando essas ferramentas”, sustenta.
Dados da pesquisa ‘Transformação Digital nos Pequenos Negócios 2025’, realizada pelo Sebrae Nacional, apontam que mais de 86% dos pequenos negócios em Goiás já utilizaram algum tipo de Inteligência Artificial (IA). Em âmbito nacional, essa média é de 83%. E em nível regional, é de 85% no Centro-Oeste.
O levantamento mostra que a internet já está presente em 97% dos pequenos negócios goianos. Já a proporção de negócios com aplicativos que integram todas ou quase todas as atividades do negócio, chegou a um patamar de 49%.

O publicitário Phillipe Marques sentiu esta necessidade. Especialista em marketing digital, jurídico e eleitoral e bacharel em Direito, ele conta que a transição dos métodos tradicionais para o digital não foi fácil, mas trouxe diversos benefícios para a Marques Marketing, empresa que fundou em 2011.
“Foi uma grande novidade. Mostrar que migrar a comunicação para o digital traria um resultado mais satisfatório não foi fácil por conta da falta de conhecimento, por estar tudo ali no começo. Porém a mudança foi extremamente positiva, aumentando o alcance, trazendo novos clientes e novos canais de mídia para anunciar clientes e produtos. Em relação aos processos internos, conseguimos dar mais velocidade com a implementação de sistemas, retirando a questão burocrática e papéis do processo”, detalha.
Marques diz que a transformação digital resultou em uma melhora expressiva tanto em vendas como de share (participação de mercado). De acordo com o publicitário, a exposição da empresa aumentou, fator que a levou a conquistar clientes em locais onde ainda não tinha capilaridade e a acessar novos mercados.

“Os processos se tornaram mais efetivos e com menos refações, trabalhos mais organizados e com celeridade que não tínhamos antes. Por exemplo, ter um CRM que tenha todos os dados do cliente em tempo real pode trazer argumentos para um fechamento de proposta mais rápida e é essencial hoje em todos os negócios. Enquanto o concorrente entrega em minutos a proposta pelo WhatsApp, de forma imediata, a sua empresa pode estar estagnada sem sistema e esperando uma aprovação setorial que não tem prazo para sair. E isso é fator essencial para o cliente fechar a compra ou não”, alerta.
Phillipe Marques dá dicas para empresários e gestores que pretendem fazer uma transformação digital em seus negócios.
“Com a implementação de IAs, conseguimos dar atendimento 24 horas para os clientes. Diversificar a comunicação também tem resultado positivo, fidelizando clientes e conquistando novos que antes não tinham acesso ao portfólio, aumentando o faturamento e a base de clientes. Mas façam isso com uma supervisão e consultoria especializada, pois assim conseguirão atingir o resultado esperado dentro de um tempo razoável”, salienta.
Principais demandas para a transformação digital
O Hub Cerrado, em Goiânia, é um ecossistema de inovação e coworking que respira empreendedorismo. De acordo com o diretor geral, Uaitã Pires, a demanda por soluções e treinamentos que ajudem os empresários a se posicionarem de forma assertiva na nova onda da transformação digital têm crescido exponencialmente.
“Essa maior busca tem sido causada por uma menor qualidade e quantidade da mão de obra disponível, mudanças mais aceleradas como reforma tributária, NR1 e mudanças na escala de trabalho, o que acaba forçando a busca por conhecimento qualificado e soluções eficientes que tenham resultado para manter a competitividade dos negócios. Pesquisa recente do Sebrae Nacional apontou que cerca de 43% das pequenas e médias empresas brasileiras realizaram investimentos recorrentes em tecnologia. Além de tudo isso temos ainda observado uma mudança nos hábitos de consumo, as buscas e compras pela internet têm se tornado mais presentes que o varejo tradicional e novos modelos de negócios têm se baseado nisso e ganhado velocidade de crescimento”, pondera.
Uaitã conta que marketing e vendas são as dores mais urgentes apresentadas pelos empreendedores, e correspondem a cerca de 90% dos atendimentos. A procura é motivada pela necessidade de posicionamento correto em redes digitais e aplicativos como Google Maps, Google Ads, Instagram, TikTok, entre outros, além de automações para vendas via site ou WhatsApp. Aproximadamente 50% das interações também buscam melhorias em gestão financeira, estoque e logística.

Só em 2025, o Hub Cerrado atendeu mais de 15 mil negócios, por meio de eventos direcionados, sessões de pitch de startups com soluções, jornadas de transformação digital e letramento em inteligência artificial e oficinas de aplicação de IA. E neste ano, a expectativa é que o número seja ainda maior.
“Estimamos que chegue a triplicar em 2026, devido à maior acessibilidade e maior popularização das ferramentas. Um exemplo é nosso bootcamp de inteligência artificial, onde você aprende a dominar do básico até o avançado de IA, te dando autonomia para construir desde um simples site até uma nova plataforma e automatizar processos com agentes. Cresceu a demanda em 400% da metade do ano passado para cá”, projeta.
O diretor reforça que a dica para começar a entrar nesse mundo é experimentar essas tecnologias, por meio do Hub Cerrado e parceiros como o Sebrae Goiás.
“Temos diversos eventos que são abertos e experts que podem auxiliar você a dar esses primeiros passos”, esclarece Uaitã Pires.
Tecnologia e investimentos do poder público são aliados
O advento das novas tecnologias impõe desafios não apenas a quem empreende, mas à sociedade como um todo. E o poder público precisa acompanhar iniciativas que otimizem a gestão. Com esse objetivo, a Prefeitura de Goiânia, por meio da Secretaria Municipal de Inovação e Transformação Digital (SIT), lançou em abril a plataforma e-Resolve, que visa promover a digitalização dos serviços públicos, centralizar atendimentos e procedimentos administrativos em um único ambiente digital.
O superintendente de Inovação e Sustentação da pasta, Cesar Augusto Marques de Souza, explica que a plataforma integra diferentes órgãos municipais e utiliza autenticação pelo Gov.br. A ferramenta é parte do programa Goiânia 100% Digital, que prevê a revisão e digitalização progressiva de fluxos administrativos.
Segundo Cesar, o e-Resolve já conta com mais de 350 mil Pessoas Jurídicas (PJ) cadastradas. A plataforma permite que essas empresas realizem solicitações, acompanhem processos, emitam documentos, obtenham licenciamentos, alvarás, autorizações, DUAMs (Documento Único de Arrecadação Municipal) e consultas de forma online, reduzindo a necessidade de deslocamentos presenciais e até mesmo o uso de papel.
“Acreditamos na desburocratização e na eficácia dos processos como pilares da transformação digital”, comenta o superintendente.

Outro programa importante nessa direção é o e-Goiás – Transformação Digital das Empresas, lançado em julho de 2024, que conecta startups com micro, pequenas e médias empresas (MPMEs) goianas que queiram inovar seus processos e produtos. A política pública é conduzida pelo Hub Goiás, iniciativa do Governo de Goiás, por meio da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti).
Maria Rita Motta, gerente de Transformação Digital da Secti, detalha como funciona o programa e de que forma ocorre essa conexão entre MPMEs e as startups.
“O e-Goiás – Transformação Digital das Empresas funciona como uma jornada de inovação aberta que conecta desafios das MPMEs a soluções de startups. O programa começa com a seleção das empresas e imersões com escuta ativa para mapear necessidades. Em seguida, os desafios são estruturados e lançados em uma chamada pública nacional para startups, que propõem soluções. Por meio de matchmaking, são feitas as conexões mais aderentes. As startups então implementam as soluções em até 2 meses, com apoio técnico e financeiro, garantindo resultados rápidos, maior produtividade e avanço da digitalização”, argumenta.
De acordo com a gerente, o e-Goiás oferece soluções tecnológicas e de inovação voltadas à resolução de desafios reais das MPMEs, que abrangem desde a melhoria de processos internos até a adoção de ferramentas digitais avançadas.
As soluções incluem, por exemplo, sistemas de gestão integrada (ERP), automação de processos, plataformas de e-commerce, integração com marketplaces, ferramentas de marketing digital, CRM, Business Intelligence (BI) e análise de dados, além de tecnologias para gestão financeira, controle de estoque e atendimento ao cliente.
“Também são priorizadas soluções ‘plug and play’, já testadas no mercado, que possam ser rapidamente implementadas e adaptadas à realidade das empresas, sem necessidade de desenvolvimento do zero. Os desafios envolvem ainda inovação em modelos de negócio, criação de produtos digitais, automação de rotinas operacionais, melhoria da maturidade digital e integração entre áreas como marketing, vendas e operações”, complementa.
O programa busca entregar soluções práticas, personalizadas e de alto impacto, focadas em aumentar a eficiência, competitividade e digitalização das empresas participantes. Desde o lançamento, o e-Goiás – Transformação Digital das Empresas já teve dois ciclos no Estado. O primeiro contou com nove empresas demandantes e seis empresas solucionadoras. Já no segundo, foram 18 empresas demandantes e 10 solucionadoras.
Os dois ciclos somam um investimento total de R$ 600 mil, sendo um aporte de R$ 200 mil no primeiro ciclo e R$ 400 mil no segundo, que se encerrará entre o final de junho e o início de julho, com as soluções já implantadas nas 18 empresas. Segundo Maria Rita Motta, um terceiro ciclo está previsto para ocorrer a partir do ano de 2027.

Perspectivas para a IA e digitalização nos pequenos negócios
Heinz Rahmig, gerente de startups do Centro de Excelência em Inteligência Artificial da Universidade Federal de Goiás (CEIA-UFG), afirma que os micro e pequenos negócios brasileiros ainda apresentam um baixo nível de digitalização. Para ele, quando uma só pessoa precisa atender o cliente, elaborar orçamentos, fechar vendas, prestar o serviço e ainda cuidar do marketing, sobra pouco tempo para aprender novas tecnologias.
“A Inteligência Artificial surge justamente nesse cenário, oferecendo uma curva de aprendizado extremamente acessível — inclusive permitindo que o empresário simplesmente converse com a máquina — e tornando possível automatizar processos, gerenciar tarefas e executar ações de forma muito mais ágil”, ressalta.

Rahmig explica que a adesão por parte das pequenas empresas ocorre conforme o retorno concreto que a tecnologia pode gerar.
“Esse retorno pode ser medido em tempo economizado, dinheiro em caixa, entre outros ganhos tangíveis. Quando o retorno é claro e a curva de aprendizado é baixa, o pequeno empresário tende a adotar a novidade com muito mais naturalidade e confiança”, diz.
O gerente de startups do CEIA-UFG vê boas perspectivas de inovação para os pequenos negócios com a implementação da IA.
“A perspectiva que enxergo é de uma equalização muito significativa do mercado. Hoje, grandes empresas têm times inteiros dedicados a marketing, atendimento, análise de dados e estratégia. O pequeno negócio simplesmente não tem esse acesso. Com a evolução da IA, o dono de uma pequena empresa poderá ter, na prática, um assistente disponível 24 horas que ajuda a redigir propostas, responder clientes, analisar o desempenho do negócio e até sugerir decisões estratégicas. A tendência é que a IA deixe de ser um diferencial competitivo e passe a ser uma infraestrutura básica”, conclui Heinz.

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