
Existe um provérbio africano que diz: “Se quer ir rápido, vá sozinho. Se quer ir longe, vá em grupo”. No dicionário Michaelis, a palavra ‘cooperar’ apresenta como significados ‘agir ou trabalhar junto com outro ou outros para um fim comum’ e ‘colaborar’. Estas premissas norteiam o cooperativismo que, em resumo, é uma forma coletiva de empreender. Nesse modelo de organização social e econômica, o esforço é conjunto, mas os resultados também são compartilhados e potencializados.
Hoje em dia, o cooperativismo está inserido em sete setores da sociedade e atua como um dos motores do desenvolvimento econômico do país. São eles: agropecuário, consumo, crédito, infraestrutura, saúde, seguros, transporte e trabalho e produção de bens e serviços. As cooperativas estão presentes em todos esses segmentos, promovendo o empreendedorismo e gerando emprego e renda.
Em se tratando especificamente do ramo da saúde em Goiás, dados do Panorama do Cooperativismo Goiano 2025, estudo realizado pelo Sistema OCB/GO em parceria com a Universidade Federal de Goiás (UFG), revelam que em 2024, o setor chegou a 39 cooperativas, 10,6 mil cooperados e cerca de 4,9 mil empregados, o que representa aproximadamente um quarto dos postos de trabalho do cooperativismo goiano. E os números financeiros impressionam ainda mais: um faturamento de R$ 4,4 bilhões.
De acordo com Luís Alberto Pereira, presidente do Sistema OCB/GO, entidade que representa o cooperativismo no Estado, esse modelo desempenha um papel essencial na democratização do acesso aos serviços de saúde em Goiás.
“As cooperativas estão presentes em diversas regiões do Estado, inclusive no interior, onde muitas vezes não há estruturas tradicionais organizadas de atendimento. Esse modelo amplia a cobertura e aproxima os profissionais das comunidades, garantindo atendimento de qualidade, continuidade do cuidado e preços mais acessíveis”, afirma.
Luís Alberto Pereira explica que, além de oferecer serviços médicos, odontológicos e multiprofissionais, as cooperativas geram empregos qualificados, fortalecem economias locais e ajudam a fixar profissionais de saúde nesses territórios.
“Mais do que números, o setor se consolidou como uma rede de cuidado, conectada por valores de solidariedade, eficiência e sustentabilidade. O crescimento de R$ 2,8 bilhões para R$ 4,4 bilhões em faturamento nos últimos 4 anos mostra que as cooperativas de saúde têm conseguido unir impacto social com solidez econômica — um modelo que complementa o sistema público e amplia o acesso da população a uma saúde de qualidade”, argumenta.

Pereira reforça que o Sistema OCB/GO e o Sescoop têm papel decisivo na organização, capacitação e fortalecimento institucional das cooperativas de saúde. Segundo o presidente, a atuação integrada dessas duas entidades garante formação continuada para gestores e profissionais, dissemina boas práticas de governança e sustentabilidade (ESG) e estimula a inovação e a intercooperação entre essas cooperativas.
“Graças a esse suporte, as cooperativas do ramo saúde apresentaram níveis avançados de maturidade institucional — 23,8% delas com melhor desempenho ambiental, 19% com excelência em governança e responsabilidade social, e quase 28% destacando-se em inovação incremental”, aponta.
O Sistema também promove interlocução com o poder público e outras redes de saúde, fortalecendo políticas de interiorização e regionalização do atendimento. Com isso, o cooperativismo goiano se consolida como um modelo sustentável de acesso à saúde, capaz de gerar desenvolvimento local e inclusão social, ao mesmo tempo em que oferece serviços de excelência à população.
Impacto das cooperativas
O presidente da Junta Comercial do Estado de Goiás (Juceg), Euclides Barbo Siqueira, destaca que as cooperativas impactam positivamente a economia através da geração de empregos e renda, promovendo um ciclo virtuoso econômico local e nacional.
“O cooperativismo de saúde não apenas fortalece a economia, mas oferece uma alternativa estrutural valiosa para o sistema público e os planos de saúde tradicionais, garantindo acesso e qualidade em serviços essenciais, como é o caso das cooperativas médicas e odontológicas. Como um todo, o cooperativismo tem se consolidado como um dos pilares da economia nacional”, reforça.

Diante desse cenário, Euclides Barbo explica que o compromisso da Juceg é facilitar o processo de registro dessa sociedade, abrangendo setores como saúde, crédito, agricultura, transporte, educação, entre outros.
“Nosso objetivo principal, que é a desburocratização, mira não apenas as cooperativas, mas sim simplificar o registro para todos os perfis e naturezas, sejam limitadas, consórcios, sociedade anônima e todas as demais”, salienta.
Cooperativismo na prática
Um exemplo prático do cooperativismo na área da saúde pode ser observado no trabalho desempenhado pela Uniodonto Goiânia, que cuida com zelo da saúde bucal e do sorriso de milhares de pessoas em Goiás. Fundada em 1983, a cooperativa conta com cirurgiões-dentistas e profissionais que atuam na prestação de serviços na área odontológica.
Atualmente, a Uniodonto Goiânia possui uma carteira com mais de 162 mil beneficiários, mais de 1,6 mil empresas clientes e um quadro de cirurgiões-dentistas que ultrapassa 550 profissionais, além de clínicas radiológicas conveniadas e da rede credenciada em mais de 150 municípios goianos.
Em 2024, foram 511.706 procedimentos odontológicos realizados pelos cirurgiões-dentistas cooperados. Os atendimentos incluem desde consultas iniciais e exames radiográficos até tratamentos restauradores. Ao longo do ano, também foram feitos 115.042 procedimentos preventivos.
O presidente da Uniodonto Goiânia, Fábio Prudente, comenta a importância do cooperativismo do ramo de saúde, especialmente em relação aos planos odontológicos.
“Temos mais de 400 cooperados na área de atuação da Uniodonto Goiânia, que corresponde a cerca de quase 40% do Estado de Goiás, mais de 250 credenciados e um total de mais de 162 mil beneficiários, o que mostra a força do Sistema Uniodonto, que é o maior sistema de cooperativas odontológicas do mundo. O Brasil dá aula nesse sentido de mostrar um modelo de cooperativismo no ramo de planos odontológicos que dá certo, principalmente pela capilaridade em todo o território nacional”, enfatiza.
Terceiro maior setor do cooperativismo no país, o ramo da saúde é regulado pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Fábio detalha que isso faz com que o segmento trabalhe com os pilares da governança corporativa, o que traz seriedade em relação às instruções normativas junto ao órgão regulador.
O presidente da Uniodonto Goiânia enfatiza que nas cooperativas odontológicas, além da geração de trabalho e renda, os cirurgiões-dentistas cooperados passam a ser donos do negócio.
“O nosso cooperado, na ponta, é dono desse negócio. Digo que é um privilégio, literalmente, você ser atendido pelo dono do negócio. Eu gosto de dizer que a gente da Uniodonto não vende plano odontológico. A gente entrega assistência odontológica de qualidade. Isso faz toda a diferença para os nossos beneficiários que esperam, sim, um produto com preço acessível, mas um produto principalmente de qualidade, que faça a diferença na saúde bucal da população”, assegura.

Fábio Prudente ressalta que os profissionais têm rentabilidade e uma remuneração mais justa e sustentável.
“O cooperativismo se consolida como um modelo econômico que dá certo, em que as pessoas têm rentabilidade, têm um modelo remuneratório mais justo e principalmente sustentável. Eu acho que isso faz toda a diferença. E com pilares muito importantes em relação à preocupação com a comunidade em que estamos inseridos. Esse é um dos princípios do cooperativismo, que mostra a sua força com toda a capilaridade, com toda a qualidade dos produtos que vêm de cooperativas, sejam eles bens, prestação de serviços e, no nosso caso, a saúde que é um bem intangível que faz toda a diferença na qualidade de vida das pessoas”, conclui o presidente da Uniodonto Goiânia.
Para Haroldo Maciel Carneiro, presidente da Cooperativa dos Médicos Anestesiologistas de Goiás (Coopanest-GO), fundada em 1974, o cooperativismo em saúde se mostra uma alternativa sólida, democrática e sustentável para ampliar o acesso da população a serviços de qualidade.
“Ao contrário de modelos tradicionais, o cooperativismo valoriza o profissional, fortalece sua autonomia e, ao mesmo tempo, contribui para que hospitais, clínicas e instituições tenham acesso a mão de obra altamente qualificada”, explica.

Haroldo pontua que a Coopanest-GO reúne anestesiologistas comprometidos com a excelência técnica e com a humanização do cuidado, o que permite que unidades públicas e privadas contem com especialistas preparados e organizados, garantindo segurança ao paciente e eficiência ao sistema de saúde.
“Além de representar nossos cooperados, trabalhamos para promover educação continuada, boas práticas e protocolos que elevam ainda mais o padrão da anestesia no Estado. Acreditamos que quando o profissional é valorizado e encontra condições adequadas para exercer seu trabalho, toda a sociedade ganha. É essa lógica cooperativista, baseada em solidariedade e responsabilidade compartilhada, que faz do cooperativismo um caminho cada vez mais necessário para transformar a saúde e torná-la mais acessível a todos”, reforça o presidente.
Com 51 anos de mercado, a Coopanest-GO foi a primeira cooperativa de especialidade médica do país e soma 24 milhões de procedimentos realizados. Atualmente, conta com 597 médicos cooperados, que atendem 60 convênios.
Com a palavra, o cooperado
O cirurgião-dentista e especialista em Periodontia, José Carrijo Brom, é cooperado da Uniodonto Goiânia e detalha os motivos pelos quais optou pelo cooperativismo.
“O que me trouxe a participar foram os princípios da cooperação e da solidariedade. Essa possibilidade de crescimento coletivo me trouxe o estímulo em participar e apoiar o sistema cooperativo que, profissionalmente, diante da realidade da nossa profissão no mercado de trabalho, foi e tem sido muito importante para a manutenção de minhas atividades profissionais”, aponta.
Segundo Carrijo, o modelo proporciona maior segurança no dia a dia.
“O cooperativismo nos torna donos do próprio negócio. As decisões são tomadas coletivamente, diferente do que ocorre em outras modalidades de trabalho na saúde suplementar onde existe um dono que, quem presta serviço, muitas vezes nem sabe de quem se trata”, diz.
Com 30 anos no cooperativismo, o profissional se mostra satisfeito.
“Nesse tempo de atuação na minha atividade profissional, no que tange a trabalhar com a saúde suplementar, o fiz exclusivamente, via cooperativismo, que bem gerido, nos traz estabilidade e ajuda no crescimento profissional”, finaliza.
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